sexta-feira, janeiro 26, 2007

Tons de cinzento

O Mundo nunca foi uma batalha entre o Bem e o Mal. Quem possui essa visão ingénua soçobra às reivindicações de ideologias oposicionais, cada uma delas assumindo-se do Bem e relegando a outra para o lado do Mal. A perspectiva a preto-e-branco é tudo menos realista. É manipuladora e, por isso, perniciosa. O máximo a que podemos aspirar na interpretação reducional do Mundo e de cada uma das suas coisas é retirar-lhes a coloração, ou seja, o ruído, a confusão, e olhar para os tons de cinzento. Validemos, pois, este prisma na análise da Despenalização da Interupção Voluntária da Gravidez (IVG), a referendar no dia 11 de Fevereiro. Como tal, não há argumentos bons nem maus. Não se pode afirmar sequer haver argumentos. Há, quando muito, manchas de coisas mais ou menos sombrias, atiradas à parede pública. Contrastes entre escuros e claros. Nenhum destes é completamente Bom nem Mau. Os extremos, se os houvesse, tocar-se-iam em toda a amplitude do espectro. A mediatriz desse espectro dir-nos-ia a posição correcta a assumir, o compromisso na confluência do cinzento puro e original de que é feita a cinza que somos, de onde viemos e à qual voltaremos. Utopia irónica a de agradar a cada um, agradando ao que é comum em todos nós, independentemente das cores com que assumimos as coisas ou que, através delas, alguns poucos fazem com que muitos outros, pela incapacidade de delas se abstraírem, vivam na ignorância.
Infelizmente, a questão da IVG não é a questão da Vida, da Morte, de Deus, da Liberdade ou da Lei, do Sim ou do Não. É apenas a escolha insignificante de um mal menor, como insignificantes serão todas as escolhas entregues aos que navegam nas águas turvas do pântano da ignorância.
O mal maior será a própria ignorância, o querer ou deixar-se fechar os olhos à realidade ou à possibilidade tangencial da sua compreensão.
E como é indigna a realidade presente, vista a preto-e-branco, a cores ou em tons de cinzento! Nunca podemos subtraír a indignidade à ignorância.
Por isso, o mal menor é despenalizar a interrupção voluntária da gravidez.

5 comentários:

Anónimo disse...

Sim sr! Concordo na íntegra :)

horned_dog disse...

Dificilmente poderia esta questão ser tão sucinta e correctamente resumida.

Parabéns pela lucidez!

cazuza disse...

Parabéns pela coragem em assumir uma posição num tema destes.
Concordo da primeira à ultima palavra!

MInilu disse...

Exactamente o cinzento, uma cor tão bonita.não é?Eu sou mulher e futura enfermeira e, realmente as coisas não podem ser branco ou preto, temos direitos e deveres...Por isso o mal menor será essa resposta.

f disse...

Ha muita gente que interessa que o NAO ganhe! Porque os abortos ilegais sao uma grande fonte de rendimento para algumas pessoas!